Archive for the ‘Carol BENSIMON’ Category

MixLit 34: Tempos depois

Já fazia muito tempo1 e estava muito bonita. Mas gostava mais dela com os cabelos soltos. Do lugar onde estava, eu adivinhava-lhe o peso ligeiro dos seios e reconhecia-lhe o lábio inferior, sempre um pouco inchado. Parecia muito nervosa2.

Me dê um lugar, disse ela. Meu primeiro movimento foi ir embora, mas o cansaço, e o fato de não ter para onde ir, me impediram3. Sacou os óculos do rosto com displicência, apoiou a cabeça nas mãos e assim ficou. Bufando.

– Boa noite – eu disse4.

Ela não respondeu e fiquei calado, brincando com a corda da persiana.

– Ainda está zangada? – perguntei, afinal.

– Estou.

– Não fique assim5. Eu… não queria… Eu queria que nada disso tivesse acontecido.

– Tudo bem.

– Diz o que você quer. Quer me xingar?

– Não.

– Quer me dar um soco? Eu deixo6.

– Não, não precisa também. Brigada7.

O céu ficou carregado de nuvens escurecidas. Olhei lá para fora à espera de uma trovoada que trouxesse uma chuva de meia-hora. Mas nada8. Eu estava para dizer que entendia perfeitamente quando ela se recostou contra a almofada, pegou na minha mão e, com um sorriso travesso destinado a reforçar a sua candura, disse9:

– Você é papai10.

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1 Charles BUKOWSKI. A mulher mais linda da cidade e outras histórias. Tradução de Albino Poli Jr. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2003, p.112.

2 Albert CAMUS. Estado de sítio/O estrangeiro. Tradução de Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.263.

3 Samuel BECKETT. Primeiro amor. Tradução de Célia Euvaldo. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p.10.

4 Max MALLMAN. Síndrome de Quimera. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p.35.

5 Philip ROTH. Goodbye, Columbus – e outros contos. Tradução de Luiz Horácio da Matta. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971, p.86.

6 Lourenço MUTARELLI. A arte de produzir efeito sem causa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.68.

7 Carol BENSIMON. Pó de parede. Porto Alegre: não editora, 2008, p.37.

8 ONDJAKI. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009, p.134.

9 Henry MILLER. Dias de paz em Clichy. Tradução de Roberto Muggiati. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004, p.12.

10 Rodrigo de SOUZA LEÃO. Todos os cachorros são azuis. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008, p.32.

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MixLit 13: O amor ao longo do tempo

– Principais motivos para morrer: é o que os outros esperam que se faça quando você chega à minha idade; a decrepitude e senilidade iminentes; o desperdício de dinheiro – gastando a herança – para manter viva uma saca de ossos velhos incontinentes, com o cérebro morto; interesse reduzido nas notícias, fomes, guerras, etc. (1)

Carlos achou miseráveis as suas ideias. Na impossibilidade de encontrar palavras à altura da cena, tão simples e tão elevada ao mesmo tempo, respondeu com lugares-comuns sobre o destino das mulheres:

– Senhora – ele disse – é preciso sabermos esquecer nossas dores, ou então cavamos nossa sepultura.

Mas a razão é sempre mesquinha em face do sentimento; uma é naturalmente limitada, como tudo que é positivo, e o outro é infinito. Raciocinar onde é preciso sentir, isso é próprio das almas medíocres.(2)

– Que é que você está pretendendo? – ela perguntou finalmente.

– Nada, ora essa, já não falei? Quer que eu vá embora?

– Não… Pode ficar.

Sem se olharem, cada um esperava que o outro prosseguisse a conversa.(3)

– Você não quer voltar pra festa?

Laura franze as sobrancelhas.

– Acho que tá chata aquela festa.

E ri.

– Sério, você lembra o que aconteceu?

– Ahn, não muito. Eu fiquei tonta e comecei a pensar e ver umas coisas meio doidas. É isso que eu lembro.

– Talvez você devesse comer uns doces. Eu posso trazer uns doces pra você.(4)

– És um homem, tu! Tens tudo o que é preciso para te fazeres amar. Mas vamos recomeçar, não é verdade? Vamo-nos amar muito. Vês? Estou a rir, sinto-me feliz! Que dizes?(5)

– Viver é fazer mal, aos outros e a si próprio, através dos outros.(6)

– Mas você me ama.

– Por isso eu te amo.(7)

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1. Julian BARNES. Um toque de limão. 2004. Tradução de Ana Deiró. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2006, conto: Saber francês, pgs.190, 191.

2. Honoré de BALZAC. A mulher de trinta anos. 1842. Tradução de Casimiro Fernandes e Wilson Lousada. Círculo do Livro/Editora Globo. São Paulo. 1973, pg.132.

3. Fernando SABINO. Duas novelas de amor. 1998. Editora Ática. São Paulo. 2002, novela: Noite única, pg.85.

4. Carol BENSIMON. Pó de parede. Não Editora. Rio Grande do Sul. 2008, pgs.38, 39.

5. Gustave FLAUBERT. Madame Bovary. 1857. Tradução de Fernanda Ferreira Graça. Abril/Controljornal Edipresse. Linda-a-velha, Portugal. Biblioteca Visão, pg.285.

6. Albert CAMUS. Diário de viagem – A visita de Camus ao Brasil. 1949. Publicado na França em 1978. Tradução de Valerie Rumjnek Chaves. Editora Record. Rio de Janeiro.  Sem data, 2ª edição, pg.116.

7. Ian McEWAN. Na praia. 2007. Tradução de Bernardo Carvalho. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, 6ª reimpressão, pg.100.

Imagem: Joan Brockwoldt, “The elderly couple”, http://joanbreckwoldt.blogspot.com

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