Archive for the ‘Alejo CARPENTIER’ Category

MixLit 25: Ao redor

Fazia muito tempo que Tucker não ia a um lugar ouvir uma banda, e ele mal conseguia acreditar que tudo aquilo ainda lhe parecia familiar. Não deveria ter havido algum progresso desde então?(1) Parecia que a banda de botas envernizadas não sabia tocar outra coisa. O mesmo acontecia com a banda de milícia dos mulatos. Nas festas, nos desfiles, escutava-se sempre a mesma melodia lamentosa, girando redonda como um cavalo velho de carrossel(2).

A sombra de uma profunda tristeza toldou-lhe os olhos tão bondosos, os tracinhos finos das rugas que os cercavam acentuaram-se-lhe, tornando-lhe o olhar mais profundo. Relanceou a vista em redor, e disse, a si próprio se ironizando:(3)

– Ah, humilhação é quase tudo(4), homem é assim mesmo. Nem todos gostam de mostrar que estão sem fazer nada em casa, sempre saem(5).

A baba dele caía ao chão. Sua cabeça, pensamentos escassos.

Disparou o gatilho.

E por lá viram se espalhar os miolos dele(6).

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1. Nick HORNBY. Juliet, nua e crua. 2009. Tradução de Paulo Reis. Rocco. Rio de Janeiro. 2009, p.111.

2. Alejo CARPENTIER. Os primeiros contos de dez mestres da narrativa latino-americana. (vários autores) Seleção, introdução e estudos críticos de Ángel Rama, 1978. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1978, conto: Ofício de trevas, tradução de Eliane Zagury, p.47.

3. Maximo GÓRKI. Tchekov. (vários autores) Sem data. Tradução de Emília Rodrigues. Arcádia. Lisboa. 1963, p.12.

4. Carola SAAVEDRA. Toda terça. 2007. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, p.69.

5. Autran DOURADO. Armas e corações. 1978. Rocco. Rio de Janeiro. 2006, p.30.

6. Beatriz GRIMALDI. Coletânea Prêmio Off-Flip de Literatura 2008. (vários autores) Selo OFF Flip Editora. Rio de Janeiro. 2009, conto: Gravidade, p.43.

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