MixLit 58: Se estou vivo, algo está morrendo

Não me venha com teorias, estou farto1. É necessário que no trato com nós próprios nos portemos com extrema sinceridade. Caso contrário2, por que romper certos silêncios e ouvir sombras capazes de ferir?3 Peço  justiça para aqueles que, com suas vidas e obras, são uma benção para a humanidade. Não coloco acima de tudo4 Nietzsche e os conceitos de vontade de potência e eterno retorno, Bergson e os conceitos de multiplicidade, atual e virtual, gênese, atualização, duração e Espinosa e os conceitos de intensidade, expressão, imanência5. A razão humana é um amálgama confuso  em que todas as opiniões e todos os costumes, qualquer que seja a sua natureza, encontram igualmente lugar6. Nos últimos meses, três ex-colegas meus se mataram7, desesperados com o fato de o mundo já não possuir os sentidos e a capacidade para acolher suas artes e ciências8. O que é que interessa às pessoas hoje em dia? Dançar, tomar banho, conversar; porém, nada de coisas sérias nem de trabalhar9. Começo a ficar rabugento10, estragado, como qualquer um pode ver11. Não me incomodo em repetir12: Não sabia que a morte podia ser vivida13.

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1 Herberto HELDER. Photomaton & Vox. Lisboa: Assírio e Alvim, 1979, pg.89.

2 Ramón Gómez de LA SERNA. O médico inverossímil.  Tradução de Júlio Henriques. Lisboa: Antígona, 1998, pg.23.

3 Lu MENEZES. Onde o céu descasca. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011, p.78.

4 Henry David THOREAU. Walden, ou a vida nos bosques. Tradução de Denise Bottman. Rio Grande do Sul: L&PM, 2010, pg.82.

5 Roberto MACHADO. Deleuze, a arte e a filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, pg.247.

6 Michel de MONTAIGNE. Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Abril. Coleção Os Pensadores, 2ª edição, 1980, pg.59.

Thomas BERNHARD. O imitador de vozes. Tradução de Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.151.

8 Thomas BERNHARD. Idem.

9 Elias CANETTI. Auto de fé. Tradução de Luís de Almeida Campos. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2011, pg.30.

10 Herman MELVILLE. Moby Dick. Tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Cosac Naify, 2010, pg.26.

11 Carlito AZEVEDO. Collapsus linguae. Rio de Janeiro: 7Letras, 2001, pg.15.

12 João Gilberto NOLL. Harmada. São Paulo:Francis, 2003, pg.63.

13 Marguerite DURAS. O homem sentado no corredor/A doença da morte. Tradução de Vadim Nikitim. São Paulo: Cosac Naify, 2007, pg.78.

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5 responses to this post.

  1. Posted by Lu Menezes on 22 de novembro de 2011 at 10:16

    Olá, Léo,
    lindas e interessantíssimas as reinvenções.Gostei ainda do cuidado com o crédito a cada autor envolvido. Muito bem! L.M.

  2. Oi Lu, respondi no seu email. Fico feliz com a visita e que tenha gostado. E os créditos são essenciais.

  3. Maravilhoso este MixLit, Léo.
    Grande abraço, compartilhei lá no fb

  4. Posted by clara on 19 de dezembro de 2011 at 17:37

    muito bom mesmo 🙂 me lembrou http://www.youtube.com/watch?v=L6E6T_Mx0cg

  5. Legal que gostaram, Carlos e Clara. E, Clara, esse vídeo é realmente interessante. um abraço.

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