MixLit 47: Era época de estudos

De suas bocas saíam refrãos que se repetiam como preces budistas, como resmungos incompreensíveis repetidos pela multidão1. Para nos fazerem estudar mais, eles nos falavam de empregos em que você ficava anos bombeando esgoto, incinerando lixo, borrifando veneno. Removendo asbesto. Havia empregos tão horríveis que eles diziam que ficaríamos felizes em morrer mais cedo2. Todos se olhavam, sorriam e baixavam o olhar sem saber o que dizer3. Eu não tinha vontade de dizer nada, quem sabe acabaria igual a4 Santo Tomás, buscando definições precisas para aqueles conceitos tão voláteis de bem, justiça e verdade5. Meu pai6 não conseguia explicar muitas dessas coisas. Mas7 dizia que os judeus sempre devem ter profissões que possam exercer em qualquer circunstância8. Lembro bem9: “Tenho tido paciência10. É inteligência minha haver sido muitas coisas em muitos lugares, para poder tornar-me um – para poder alcançar uma coisa11 neste mundo que não se pode mudaa-a-a-ar…”, cantarolou12 com graça e humor13.

Só me aliviaria lhe dando uns bons socos na cara14.


1 Dai SIJIE. Balzac e a costureirinha chinesa. Tradução de Vera Lúcia dos Reis. Rio de Janeiro: Alfaguara/Objetiva, 2008, p.85.

2 Chuck PALAHNIUK. Sobrevivente. Tradução de Marcelo Oliveira Nunes. São Paulo: Nova Alexandria, p.85.

3 Andrés NEUMAN. O viajante do século. Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. Rio de Janeiro: Alfaguara/Objetiva, 2011, p.267.

4 Lívia GARCIA-ROZA. O sonho de Matilde. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.45.

5 Alberto MUSSA. O trono da rainha Jinga. Rio de Janeiro: Record, 2007, p.29.

6 Michel LAUB. Diário da queda. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.44.

7 Robert MUSIL. O jovem Torless. 1906. Tradução de Lya Luft. Coleção Grandes Romances. Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1978, p.193.

8 Michel LAUB. Idem, p.44.

9 Arthur RIMBAUD. Uma temporada no inferno. 1873. Tradução de Paulo Hecker Filho. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. Edição bilíngue, 2006, pg.17..

10 Arthur RIMBAUD. Idem, pg. 69.

11 Friedrich NIETZSCHE. Ecce homo – Como alguém se torna o que é. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.71.

12 Irvine WELSH. Trainspotting. Tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari. Rocco. Rio de Janeiro. 2004, p.310.

13 Moacyr SCLIAR. Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Rio Grande do Sul: L&PM, 1996, p.12.

14 MOLIÈRE. Escola de mulheres. Tradução de Millôr Fernandes. São Paulo: Círculo do Livro, sem data, p.101.

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