MixLit 22: Bea, eu e meu esporte favorito

Diziam sempre que eu não era confiável. Ele não é confiável. Ele tem problemas de personalidade e higiene. Ele anda de um jeito, sei lá, esquisito.(1) Sinto que me torno obscuro. Seguramente, seriam necessários alguns termos definitivos para que pudesse explicar-me, termos que, por serem científicos, não chegam a ser impróprios. Mas não os empregarei. Não imagines que eu os receie: não se deve ter medo das palavras desde o momento em que se tenha consentido com os atos.(2) Só gosto de ler. Meu único esporte. Não faço ginástica. Leão não faz ginástica, dizia San Tiago. Então leio. Assim mesmo, leio pouco, menos do que devia, do que queria. Sem método.(3) A partir do dia em que descobri a biblioteca de aluguel de Sylvia Beach, li todo o Turgueniev, tudo o que havia de Gogol em inglês, as traduções de Tolstói feitas por Constance Garnett e as traduções de Tchekhov publicadas na Inglaterra.  Em Toronto, muito antes de virmos para Paris, haviam-me dito que Katherine Mansfield era uma boa contista, talvez mesmo uma grande contista; o diabo é tentar lê-la depois de Tchekhov. É como comparar as histórias bem arrumadinhas de uma solteirona com os contos de um clínico que fosse também bom escritor e tivesse estilo simples e direto. Antes beber água do que tomar a cerveja choca de Masnfield. (4)

Bea e eu agora tomamos conta da livraria. Eu fiquei com as contas e os números. Bea faz as compras e atende aos clientes, que a preferem a mim. Não os culpo.(5)

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1. Don DELILLO. Cosmópolis. 2003. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, PP.59,60.

2. Marguerite YOURCENAR. Alexis ou O tratado do vão combate. 1929. Tradução de Martha Calderaro. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1981, 2ª edição, p.31.

3. Otto LARA RESENDE. O príncipe e o sabiá. 1994. Companhia das Letras. São Paulo.  1994, p.298.

4. Ernest HEMINGWAY. Paris é uma festa. 1964. Tradução de Ênio Silveira. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2006, 8ª edição, p.151.

5. Carlos Ruiz ZAFÓN. A sombra do vento. 2001. Tradução de Marcia Ribas. Suma de Letras/Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, p.396.

Imagem: George Fisherman, mosaico “Faces of flower avenue”, detalhe “reading man”, 1991: http://web.me.com/georgefishman/commissioned_projects/public_art/faces_of_flower_avenue/fishmanfacesdetail.html

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One response to this post.

  1. isso e uma grande… besteira procure o que fazer seu idiota ou sua idiota

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