MixLit 20: À espera do futuro

Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacinto, que, com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga de granito – parti para Guiães.(1)

A princípio, haviam tentado manter tudo aquilo em segredo. Afinal de contas, não tinham certeza absoluta de que se tratasse de uma mensagem extraterrestre. Um anúncio prematuro ou equivocado seria um desastre em matéria de relações públicas. Pior do que isso – iria interferir na análise dos dados. Se a imprensa se envolvesse, a ciência certamente seria prejudicada.(2)

– Sou mais confiável do que pareço. Não falo nada sobre a agência, nunca. Sério mesmo. Mas não agüento um minuto se for torturado para fornecer informações.  Não suporto a dor.(3) Quem sabe eu ainda convenço eles, Barbuda?  Vem.

Saíram correndo. Maria também quis correr, mas não conseguiu se mexer: a garganta seca, o olho ardendo, o coração num toquetoque medonho.

Uma banda tocou forte. Corneta, tambor, prato estalando. E no meio da barulhada, a porta bateu. O quarto se acendeu todo. (4)

– Boa noite, cavalheiro, eu vos esperava há muito.(5)

Tirou do bolso uma buzina de automóvel, afixou-a na lapela, apertou-a com a exuberância de uma mulher espargindo perfume com um atomizador e disse:

– Ouçam a linguagem do futuro. As palavras desapareceram por completo e isto aqui é como os seres humanos irão conversar com os outros!(6)

Oh! Humanidade! Oh! Estupidez!(7)

_____________________

1. Eça DE QUEIROZ. A cidade e as serras. 1901. Villa Rica. Belo Horizonte. 1994, pg.119.

2. Carl SAGAN. Contato. 1985. Tradução de Donaldson M. Garschagen. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, pg.82.

3. P.D. JAMES. O crânio sob a pele. 1982. Tradução de Celso Nogueira. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, pg.35.

4. Lygia BOJUNGA. Corda bamba. 1979. Agir. Rio de Janeiro. 1996, 18ª edição, pg.113.

5. Álvares DE AZEVEDO. Noite na taverna. 1940-1952. Francisco Alves Editora. Rio de Janeiro. 1988, 3ª edição, pg.128.

6. Anaïs NIN. Uma espiã na casa do amor. 1959. Tradução de Reinaldo Guarany. L&PM. Rio Grande do Sul. 2006, pg.128.

7. Friedrich NIETZSCHE. Além do bem e do mal. 1866. Tradução de Márcio Pugliesi.Hemus Editora. São Paulo. 1981, pg.55.

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One response to this post.

  1. Oi!
    Muito legal essa sua idéia! Nunca vi nada parecido e gostei muito, porque a mixagem é com literatura de primeira qualidade. Parabéns pelo trabalho! 🙂

    Um beijo

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