MixLit 18: Remédio do tempo

Era um sueco chamado Emmanuelson e, quando o conheci, trabalhava como maître d´hotel num dos hotéis de Nairóbi. Ele era um rapaz gorducho, de rosto avermelhado e inchado, e costumava ficar de pé ao lado da mesa quando eu almoçava no hotel.(1) Surpreendia-se pensando no tempo e na terra de onde viera. Se ele tivesse sabido que havia só um décimo, só um centésimo do que aprendera aqui, como a vida teria sido mais válida!(2) O tempo era assim pra ele: fazia horas a mais.(3) Em troca de certos favores, ele responderia as minhas perguntas. Mas eu tinha que estar disposto a entender o lado dele. Tinha que ouvir com a mente aberta.(4)

– Acho que vocês poderiam fazer alguma coisa melhor com o tempo – disse – do que gastá-lo com adivinhações que não têm resposta.

– Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu, falaria dele com mais respeito.(5) Vejo-o: fechado como eu, fechado entre palavras, entre as paredes do seu escritório, perpetuamente iluminado pelas lâmpadas fluorescentes: lendo.

E quanto a ele?

– E quanto a mim?

Disse que o mundo para ele se transformara num recinto excessivamente fechado.

– Não saio daqui. Reduzi meus domínios a este aposento. De vez em quando olho por aquela janela. O que vejo? Árvores. Vejo árvores.(6)

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1. Karen BLIXEN. A fazenda africana.  1937. Tradução de Claudio Marcondes. Cosac Naify. São Paulo. 2005, pg.219.

2. Richard BACH. A história de Fernão Capelo Gaivota. 1970. Tradução de Antônio Ramos Rosa e Madalena Rosález. Nórdica. Rio de Janeiro. Sem data, pg.100.

3. ZIRALDO. O menino maluquinho. 1980. Melhoramentos. São Paulo. 1980, 5ª edição, pg.83.

4. John DUNNING. O último caso da colecionadora de livros. 2006. Tradução de Álvaro Hattnher. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, pg.388.

5. Lewis CARROL. Aventuras de Alice no país das maravilhas/Através do espelho e o que Alice encontrou lá. 1865/1872. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Zahar. Rio de Janeiro. 2010, pg.84.

6. Ricardo PIGLIA. Respiração artificial. 1980. Tradução de Heloisa Jahn. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, pg.40.

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2 responses to this post.

  1. Uou! Como eu disse é possível perceber a unidade dessa mixagem. Parabéns pela unidade, construí-la não parece fácil. Percebê-la também exige certo esforço. Mas a tontura é boa, não é da ordem da dor de cabeça não.

  2. Posted by Mariabia on 28 28UTC junho 28UTC 2010 at 10:26

    nossa, gostei muito desse!

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