MixLit 15: Heranças e lições

Pareceu-lhe que os empregados retiraram seu avião do hangar vagarosamente e de má vontade.

– Depressa!, disse Bernard irritado. Um deles olhou-o. Seria uma espécie de zombaria bestial que ele identificou naqueles olhos baços e vazios? Depressa!, gritou mais alto e sua voz mostrou-se desagradavelmente rouca.(1)

– Será que me tornarei também um chefe?, perguntou Lucien.

– Mas certamente, meu rapagão, foi para isso que você nasceu.(2) Com sua boa vontade de aprender, de trabalhar e seguir avante, (3) aposto que sim.(4)

– E em quem eu mandarei?

– Bem, quando eu tiver morrido, você será o dono da usina e mandará nos operários.

– Mas eles estarão mortos também.

– Então você mandará nos filhos deles e será preciso que saiba fazer-se obedecer e amar.

– E como me farei amar, papai?

Papai refletiu um pouco e disse:

– Em primeiro lugar, será necessário que você conheça a todos pelos seus nomes.(5)Trata-se apenas de um jogo, ou, antes ainda, trata-se da encenação de um jogo, no qual o filho reproduz o que se espera dele.(6) Boa tática, meu jovem, é influenciar no começo e no fim todos os meios de comunicação do país. Esse é o objetivo.(7)

Assim falou ele e todos quedaram emudecidos.(8)

____________________

1. Aldous HUXLEY. Admirável mundo novo. 1931. Tradução de Felisberto Albuquerque. Bradil – Cia. Brasileira de divulgação do livro. Rio de Janeiro. 1969, 11ª edição, pg.94.

2, 5. Jean-Paul SARTRE. O muro. 1938. Tradução de H. Alcântara Silveira. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 1963, conto: Infância de um chefe, pg.126.

3. Cristovão TEZZA. O filho eterno. 2007. Editora Record. Rio de Janeiro. 2007, 3ª edição, pg.154.

4. Carlo COLLODI. As aventuras de Pinóquio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Cosac Naify, pg.337.

6. Irvine WELSH. Trainspotting. Tradução de Daniel Pellizzari e Daniel Galera. Rio de Janeiro: Rocco, pg.315.

7. Lygia FAGUNDES TELLES. Seminário dos ratos. 1977. José Olympio Editora. Rio de Janeiro. 1980, 3ª edição, conto: Seminário dos ratos, pg.120.

8. HOMERO. Odisséia. III-II a.C. Tradução de Jaime Bruna. Editora Cultrix. São Paulo. Sem data, Canto VIII, pg.92.

Image: Tim Thomsom, Father and son, http://www.burnside.sa.gov.au/webdata/resources/images/Tim_Thomson__Father_and_Son.jpg

Anúncios

2 responses to this post.

  1. Leo,
    Acabei de comprar um maravilhoso “Dicionário analógico da língua portuguesa”, mas fico pensando que seu “Thesaurus” aqui é uma eterna fonte de inspiração. Teus textos aqui no blog parecem seguir este fluxo contínuo e maravilhoso dos autores.
    Grande abraço,
    Carlos Eduardo

  2. Que bom, Carlos, fico feliz que você encontre aqui esta biblioteca de inspiração. Seu comentário é muito gratificante. Grande abraço, Leo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: