MixLit 11: Sim, me queixo

Não seguro a barra dessa solidão espessa sem um copo na mão. E um charo bem enrolado. Tem razão o Pascal: o homem não toma jeito enquanto não aprende a ficar quieto no seu quarto. Ele diz também que a calma entedia o cidadão e o obriga a sair e “mendigar o tumulto”. Jogo mais uísque nas pedras.(1)

Digo-lhe francamente que começo a ter medo de não conseguir escapar disto, pois minha constituição seria bastante boa se não tivesse que jejuar tanto tempo, mas precisei jejuar ou então trabalhar menos, e sempre que possível escolhi a primeira solução, até o momento em que me vi excessivamente fraco. Como continuar a resistir?(2) A vida seria impossível se tomássemos consciência dela. Felizmente não o fazemos. Vivemos com a mesma inconsciência que os animais, do mesmo modo fútil e inútil, e se antecipamos a morte, que é de supor, sem que seja certo, que eles não antecipam, antecipamo-la através de tantos esquecimentos, de tantas distrações e desvios, que mal podemos dizer que pensamos nela.(3)

Eu odeio ler jornal. Tem muita realidade e ela não me agrada, então pra que eu vou ficar fazendo um troço desagradável só pra mostrar que sei das coisas. Não fico fazendo tipo e não sei e não sei e pronto. To me danando pra tudo isso.(4) Um homem capaz de compreender Buda, um homem que tem noção dos céus e dos abismos da natureza humana, não deveria viver num meio em que domina o senso comum, a democracia e a educação burguesa.(5) Em resumo, eu nunca encontrei um matemático puro em que pudesse confiar fora de suas raízes e de suas equações, ou algum que sustentasse clandestinamente como ponto de fé que x ao quadrado + px era absoluta e incondicionalmente igual a q, e, tendo-o feito entender o que você quer dizer, saia fora de seu alcance tão rápido quanto for conveniente, porque, acima de qualquer dúvida, ele se empenhará em derrubá-lo.(6)

Não posso atinar os meios pelos quais Deus ou a natureza moldam a personalidade, mas às vezes me pergunto por que não me deram uma vida mais fácil. Poderia existir uma pílula de personalidade, algo como um elixir, à disposição de qualquer um, que ensinasse as mais duras lições da vida sem que a pessoa tivesse que experimentá-las… mas não.(7)

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1. Reinaldo MORAES. Tanto faz. 1980. Editora Brasiliense. São Paulo. 1982, cantadas literárias, 2ª edição, pg.42.

2. Vincent VAN GOGH. Cartas a Théo. 1879-1890. Tradução de Pierre Ruprechet. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. 1997, pg.43.

3. Fernando PESSOA. Livro do desassossego. 1913-1934. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, edição de bolso, 3ª reimpressão, pg.372.

4. Ana Paula MAIA. O habitante das falhas subterrâneas. 2003. Editora 7letras. Rio de Janeiro. 2003, Coleção Rocinante, pg.141.

5. Herman HESSE. O lobo da estepe. 1955. Tradução de Ivo Barroso. Editora Record. Rio de Janeiro. Sem data, 15ª edição, pg.70.

6. Edgar Allan POE. Os assassinatos na Rua Morgue/A carta roubada. 1844. Tradução de Erline T.V. dos Santos. Editora Paz e Terra. 1996, 2ª edição, pgs.84, 85.

7. Arnaldo BAPTISTA. Rebelde entre os rebeldes. 1980 e algo. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2007, pg.19.

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3 responses to this post.

  1. Posted by Lavine on 9 09UTC maio 09UTC 2010 at 10:14

    Lindo. Perfeito.
    Quanta criatividade, hein meu caro!
    =******

  2. Posted by Mariabia on 10 10UTC maio 10UTC 2010 at 15:56

    Gostei muuuuito desse ultimo. e essa finalizaçao com o Arnaldo ficou fantastica. Preciso ler esse livro. rs

  3. Posted by bruno di lullo on 10 10UTC maio 10UTC 2010 at 22:37

    muito boa essa mixagem poética.
    realmente, preciso ler, tbm, o livro do arnaldo batista.
    parabens

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