MixLit 10: Retorno

Me deu vontade de mijar. Provavelmente, por causa do nervosismo. Uma última mijada, então. Fui na calçada mesmo, atrás de um carro. Quanto terminei, tremi e o ar me faltou na garganta,(1) não obstante, me pareceu absurdo dizer isso a meu pai. Fazia tempo que lhe dava uma falsa imagem de mim. Me pareceu então que não tinha sentido dizer-lhe que, ainda assim, muitas coisas continuavam me oprimindo e que eu não era uma pessoa a salvo de dificuldades. Que, com o tempo, minhas dificuldades aumentavam também. Ele deve até acreditar, pensei, que não tenho dificuldades.(2)

– Nesta noite em que estamos juntos não tem sentido falar de mais nada além da verdade, do essencial, porque o nosso encontro não se repetirá e talvez já não serão muitos os dias e as noites que se seguirão, e menos ainda as noites especiais como esta. Talvez você se lembrará de que uma vez, faz muito tempo…(3)

Afrouxei o colarinho e enxuguei a testa com o punho. Soltei um pigarro, ainda incapaz de encarar seus olhos. Senti que um medo irracional e perturbador começou a me percorrer e a dor atrás dos meus olhos ficou mais forte. Meu pai continuou a me fitar, até que comecei a me revirar e nós dois nos demos conta de que eu não tinha nada a lhe oferecer.(4)

– Diga-me, por favor, o que fizeste.

– Como? Não fiz nada, respondi.

– Vamos lá, pense bem. Já passaste dos quarenta, não é mesmo? É tempo de ter juízo! O que estás pensando? Acha que não estou sabendo de todas as tuas molecagens? Agora destes para cercar a filha do diretor? Olha bem para ti, pensa um minuto naquilo que tu és! Um zero, não mais do que isso. E não tens um tostão. Te olha no espelho só por um instante, será que não te enxergas?(5)

O negócio é que eu tinha de dizer alguma coisa.

Era uma situação embaraçosa pra burro.

– Apanha tua bagagem e volta correndo pra cá. Vou deixar a porta só encostada.

– Muito obrigado.(6)

____________________

1. Daniel GALERA. Dentes guardados. 2004. Livros do Mal. Rio Grande do Sul. 2004, conto: Subconsciente, pg.41.

2. Thomas BERNHARD. Perturbação. 1969. Tradução de Hans Peter Welper e José Laurenio de Melo. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 1999, pg.76.

3. Sandor MÁRAI. As brasas. 1942. Tradução de Rosa Freire D´Aguiar. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, 8ª reimpressão, pg.97.

4. Raymond CARVER. Iniciantes. 1981 (What we talk about when we talk about love). Tradução de Rubens Figueiredo. Conto: O lance. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.83.

5. Nikolai GOGOL. Diário de um louco (precedido de O Nariz). Entre 1932 e 1952. Tradução de Roberto Gomes. L&PM Pocket. Rio Grande do Sul. 2007, pg.65.

6. J.D. SALINGER. O apanhador no campo de centeio. 1945. Tradução de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster. Editora do Autor. Rio de Janeiro. Sem data, pg.187.

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5 responses to this post.

  1. Posted by Lavine on 1 de maio de 2010 at 14:33

    Nossa… cara, deixa eu te falar. Esse trabalho que vc é muito interessante, eu estou amando receber as newslwtter no meu email. Muito obrigada.
    =******

  2. Rapaz, isso é genial. Quando ficar famoso e bilionário, vê se lembra do teu camarada, aqui. Valeu!

  3. Olá! Interessante a idéia do blog, eu faço uma coisa parecida no meu: misturo personagens e estilos de vários autores só que não uso o texto original dos autores, apenas me inspiro neles, se quiser dar uma olhada seja bem-vindo =)
    abs!

  4. Posted by Mariabia on 10 de maio de 2010 at 16:03

    acho que pai tambem ve dentro do coraçao

  5. Lendo com mais calma… gostei muito mesmo dessa. O muito obrigada do final me pareceu especialmente interessante. Porque um “muito obrigado” genérico é uma coisa, mas esse “muito obrigado” referenciado certamente vem com a bagagem do texto do qual foi extraído. Agora fiquei com vontade de conhecer todas as referências. Que coisa perturbadora! rs…

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