MixLit 9: Julgamento

A multidão começava a se dispersar, os vendedores recolhiam as suas coisas em grandes cestos, das varias fórnices que despontavam nas paredes de rocha, baixavam cordas e havia sempre alguém, nas diversas moradias, que puxava as mercadorias. Era um sobe e desce operoso, e logo toda a cidade ficou deserta.(1)

A reunião estava aberta, faziam-se os rodeios e as demoras protocolares como manda a boa tradição. Não se entrou diretamente no assunto, vagueando-se sobre o vento, o calor e outras ninharias. Todos se serviram cerveja, patrocinada pelo Tio Casuarino. Não havia copo para Mwadia, ela era mulher. Os homens bebiam devagar por respeito à bebida. Fazendo de conta que ninguém no mundo nunca antes tivesse bebido.(2)

Garambold não conseguia disfarçar a própria perturbação. Por mais que não quisesse ter nenhuma responsabilidade, e por mais que de fato não fosse diretamente responsável pelo que acontecera, ainda assim se sentia de alguma forma comprometido com o desaparecimento do rapaz. “Purevbaatar deve ter uma explicação”, repetia a propósito do outro.(3)

– Por que deste o recém-nascido a este ancião?

– Por piedade, meu senhor.(4)

A discussão foi viva, mas não prosperou: uma dessas faíscas súbitas que sobressaltam uma paisagem quieta, ameaçam revolucionar tudo e depois se extinguem na mesma velocidade com que irromperam. Nada mudou.(5)

Com o tronco estendido para a frente os dois homens, ansiosos, não se olharam.

Nolan deu o sinal.

Pardo, vaidoso do que ia fazer, caprichou na mão e deu um corte vistoso que ia de uma a outra orelha. O correntino contentou-se com um pequeno talho. Das gargantas brotou um jato de sangue, os homens deram uns passos e caíram de bruços.(6)

____________________

1. Umberto ECO. Baudolino. 2000. Tradução de Marco Lucchesi. Editora Record. Rio de Janeiro. 2001, pg.330.

2. Mia COUTO. O outro pé da sereia. 2006. Companhia das Letras. São Paulo. 2006, pg.128.

3. Bernardo CARVALHO. Mongólia. 2003. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, 2a reimpressão, pg.48.

4. SÓFOCLES. A trilogia tebana. 430 a.C. Tradução de Mário da Gama Kury. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro. 1989, 8a edição, tragédia: Édipo Rei, pg.82.

5. Alan PAULS. O passado. 2003. Tradução de Josely Vianna Baptista. CosacNaify editora. São Paulo. 2007, pgs.456, 457.

6. Jorge Luis BORGES. O informe de Brodie. 1970. Tradução de Hermilo Borba Filho. Editora Globo. Rio Grande do Sul. 1983, 2a edição, conto: O outro duelo, pg.90.

Imagem: “We will ride” (parte), de Mike Priddy, 2008, http://www.mikepriddy.com.au/

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One response to this post.

  1. “Vocês estão de parabéns!
    Eu conheci este site através da reportagem no “O Globo” =D.
    Gostei da matéria, vim conhecer o site e já virei fã.
    Parabéns ao idealizador!”

    Comentário de Léia Dantas no post anterior “MixLit é notícia em O Globo” que foi remanejado para a seção “na mídia”.

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