Mixlit 8: O que se pode querer por aí

Cheguei a Paris dois dias depois, transformado numa ruína física e moral. Não havia pregado os olhos nem comido nada nas últimas 48 horas. Mas também cheguei – tinha ruminado isso durante toda a viagem – decidido a não me deixar abater completamente, vencer a depressão que me corroía.◊

No salão estreito, o clima era eufórico, promovido pelo lazer involuntário que os passantes gozavam àquela hora da manhã. O garçom encheu um copo de conhaque até a borda e recolheu as moedinhas que eu depositara ao lado. A metade do conteúdo sorvi em um único gole, sentindo o líquido se assentar em meu estômago e distribuir fogo em todas as direções.○ Puta que pariu, tinha mulher por tudo quanto era canto e mais da metade parecia ser boa de cama, e não havia nada que se pudesse fazer – a não ser ficar olhando. Quem será que bolou um troço horrível desses? E no entanto não havia muita diferença entre uma e outra – descontando-se uma gordurinha aqui, uma falta de bunda lá – simplesmente uma porção de papoulas desabrochando no campo. Qual que se ia escolher? E por qual seria escolhido? Que importância tinha? Era tudo tão triste.□ Não amo as mulheres. O amor está para ser inventado, sabe-se. Elas só podem desejar uma situação segura. Ganha a situação, coração e beleza são postos de lado: não resta senão frio desdém, o alimento do casamento de hoje! Ou então vejo mulheres com sinais de felicidade, que eu podia tornar boas camaradas, já endurecidas por rústicos, sensíveis como açougueiros…⌂

Que consciência sádica, jocosa, tenho. Uma consciência insone, bêbada como um mar de ressaca gargalhando.∆ Minha razão condena em verdade tais recriminações e procura fortalecer-me contra os golpes da natureza, mas ela não pode impedir-me de os sentir. Iria de bom grado buscar no fim do mundo um bom ano de verdadeira tranquilidade e alegria, eu que só tenho como objetivo viver de bom humor. Sou muitas vezes de uma serenidade tristonha e estúpida, que me adormece e me dá dor de cabeça; não me basta. Se há por aí, em França ou alhures, alguém que aprecie a boa companhia, em viagem ou no lar, que se adapte ao meu humor e a quem eu me ajeite, que me comunique logo.◙

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◊ Mario VARGAS LLOSA. Travessuras da menina má. 2006. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Editora Objetiva/Alfaguara. Rio de Janeiro. 2006, pg.158.

○ Adriana LUNARDI. Vésperas. 2002. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2002, pg.94.

□ Charles BUKOWSKI. A mulher mais linda da cidade e outras histórias. 1967. Tradução de Albino Poli Jr. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. 1997, pgs.81, 82.

⌂ Arthur RIMBAUD. Uma temporada no inferno. 1873. Tradução de Paulo Hecker Filho. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. Edição bilíngue, 2006, pgs.52, 53.

∆ Diana DE HOLLANDA. Dois que não o amor. 2007. Editora 7Letras. Rio de Janeiro. Seção: dois que não, pg.19.

◙. Michel de MONTAIGNE. Ensaios. 1580. Tradução de Sérgio Milliet. Editora Abril. São Paulo. Coleção Os Pensadores, 2ª edição, 1980, pg.384, 385.

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One response to this post.

  1. Posted by Vinicius on 20 de abril de 2010 at 1:35

    fala meu amigo…gostei muito desses esta evoluindo na arte da mixagem literaria.
    As passagens ficaram mais sutis.
    Abraços

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