Mixlit 6: Entre os outros

Simplesmente desligou o telefone e guardou os pacotes ainda fechados no armário. Depois seguiu, com o prato de sobremesa atulhado de queijo, para a sala, pousando-o sobre a mesa de centro. Ligou o gravador de rolo, onde dormia uma fita do Frank Sinatra, abriu seu novo Cutty Sark e sentou-se na poltrona. Ficou ali por cerca de vinte minutos(1).

Ao sair, ouviu os gritos excitados dos jornaleiros.

– Extra! – Extra! Parlamentar assassinado brutalmente!(2)

As implicações da palavra o atingiram, e uma terrível onda de medo subiu rolando seu sistema nervoso central, e seu coração começou a batucar num ritmo assustador.

O que foi que eu fiz? Cadeia! Eles vão me mandar para a cadeia(3).

Não era homem de chorar, um militar não chora mesmo após ter deixado a farda. Mas seus olhos ficaram miúdos, sua voz mudou, perdeu toda a fanfarronada. Era quase uma voz de criança ao perguntar:

– Como pôde acontecer?(4)

Quando viu o ajuntamento de pessoas lá embaixo, apontando mais ou menos em sua direção, não lhe passou pela cabeça que pudesse ser ele o centro das atenções. Não estava habituado a ser este centro e olhou para baixo e para cima e até para trás, a janela às suas costas. Talvez pudesse haver um princípio de incêndio ou algum andaime em perigo ou alguém prestes a pular(5).

Era uma época em que a vontade e a obstinação de existir, de deixar marcas, de provocar atrito com tudo aquilo que existe, não era inteiramente usada, dado que muitos não faziam nada com isso – por miséria ou ignorância ou porque tudo dava certo para eles do mesmo jeito – e assim uma certa quantidade andava perdida no vazio(6).

Pacientemente, fez um último esforço para conseguir mais uma batida de coração, mais uma respirada, e então lhes disse com teimosia e ênfase, sem demonstrar nenhum arrependimento ou pesar:

-Ora, com diabos, fui imortal até morrer.

Esperou, mas não ouve mais respiração. Sucumbindo por si mesmo, relaxou e deixou que o levassem(7).

____________________

1. Marcelo MOUTINHO. Somos todos iguais nesta noite. 2006. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2006, conto: Da profundeza do azul, pg.99.

2. Robert Louis STEVENSON. O médico e o monstro. 1886. Tradução de Heloisa Jahn. Editora Ática. São Paulo.1996, 4ª edição, pg.46.

3. Tom WOLFE. Emboscada no Forte Bragg. 1996. Tradução de Toni Marques. Editora Rocco/L&PM Editores. Rio de Janeiro/Rio Grande do Sul. 2008, edição pocket, pg.128.

4. Jorge AMADO. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. 1959. Editora Record. Rio de Janeiro.1998, 75ª edição, pg.58.

5. Sérgio SANT´ANNA. A senhorita Simpson. 1989. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3ª reimpressão, conto: Um discurso sobre o método, pg.87

6. Italo CALVINO. O cavaleiro inexistente. 1959. Tradução Nilson Moulin. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 2ª reimpressão, edição de bolso, pg.31.

7. Jim DODGE. Fup. 1983. Tradução de Mela Laterman. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1984, pgs.93,94.

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One response to this post.

  1. Muito legal a idéia do blog. Só tive tempo de ler esse post e adorei. 😀

    Parabéns!

    Beijão.

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