Mixlit 5: Critérios

Uma ou duas vezes por mês, em Paris, mandavam-me fazer-lhe uma visita, à hora em que ele acabava de almoçar, envergando o dólmã, e servido por um criado de jaqueta com listras roxas e brancas. Queixava-se, resmungando, de que eu não aparecia há muito, que o abandonavam, oferecia-me um maçapão ou uma tangerina; atravessávamos uma sala na qual não parava nunca, onde nunca se acendia fogo, cujas paredes eram ornadas de relevos dourados, o teto pintado de azul que pretendia imitar o céu e os móveis forrados de cetim como em casa de meus avós, mas amarelo; passávamos depois para o que ele denominava o seu gabinete de “trabalho”, onde se achavam penduradas algumas dessas gravuras que representam, sobre um fundo escuro, uma deusa carnuda e rósea conduzindo um carro, ou montada sobre um globo, ou com uma estrela na fronte, que eram tão apreciadas no Segundo Império, porque lhes achavam um ar pompeano, que depois foram detestadas e agora começavam a agradar de novo pela única razão, embora se aleguem outras, de terem um caráter Segundo Império(1).

O cego afirmava: Se não enxergo, melhor para mim que me poupo de ver o que se convencionou chamar de formas, esta exibição que não passa do excremento das coisas. Os verdadeiros seres são aqueles limpos de figuras, aqueles seres que ficam em refúgio, longe das linhas, curvas ou retas, dos volumes, das cores. Os verdadeiros seres se frutificam na ausência(2).

Era alto e desengonçado, às vezes se desculpava por ser atrapalhado e não saber pôr as coisas dele em ordem nem arrumar a casa. Não sei se gostava da vida de solteiro, acho que não queria uma mulher ao lado dele, dia e noite, sem trégua. Mal suporto a mim mesmo, ele dizia, justificando a solidão(3).

Sentira crescer em minha mão a umidade de sua testa, enquanto pensava no argumento de cinema de que me falara Julio Stein, lembrava Julio sorrindo e batendo no meu braço, garantindo que eu logo me afastaria da pobreza como de uma amante envelhecida, convencendo-me de que eu queria fazer isso(4). Agradeço a esses monstros serem tão ridículos, pois eles nos ensinaram que era possível um ser humano acreditar em alguma coisa e agir apaixonadamente na conservação dessa crença – fosse qual fosse(5).

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1. Marcel PROUST. No caminho de Swann – Em busca do tempo perdido. 1913. Tradução de Mário Quintana. Editora Abril. São Paulo, 1979, pg48.

2. João Gilberto NOLL. Harmada. 2003. W11 Editores, selo Francis. São Paulo. 2003, pg65.

3. Milton HATOUM. A cidade ilhada. 2009. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, conto: Dois tempos, pg.62.

4. Juan Carlos ONETTI. A vida breve. 1950. Tradução de Josely Vianna Batista. Editora Planeta. São Paulo. 2004, pg.22.

5. Kurt VONNEGUT. Almoço dos campeões. 1973. Traduzido por Hindemburgo Dobal. Editora Artenova. Rio de Janeiro. 1973, pg.32.

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