Mixlit 3: Carta a uma amiga

Querida dona Leonor:

Espero que estas linhas a encontrem bem de saúde na companhia dos seus. Depois de muito titubear, volto a escrever-lhe, mas antes de mais nada devo lhe fazer um esclarecimento: tenho, graças a Deus, uma família que muitos gostariam de ter, meu marido é uma pessoa irrepreensível, muito considerado em seu ramo de atividade, não me deixa faltar nada, e meus dois filhos estão crescendo que é um primor, embora como mãe eu não devesse estar dizendo tudo isso, mas já que estou querendo mesmo ser sincera tenho de dizer as coisas como elas realmente são(1) e realmente desta vez proponho já da minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor?(2) Como é que aquele ali me descobriu? Não somos mais nós mesmos, nessas condições, e é penoso não ser mais você mesmo, ainda mais penoso do que sê-lo, apesar do que dizem. Pois quando o somos, sabemos o que temos que fazer para sê-lo menos, ao passo que quando não o somos mais, somos qualquer um, não há mais como nos apagar. O que se chama amor é o exílio, com um cartão-postal da terra natal de vez em quando.(3) Na época do meu noivado, eu não sabia nada dos homens. Não sabia nada da vida de um casal. Eu só conhecia meus pais. E que belo exemplo! Meu pai, o grande interesse dele eram suas codornas, suas codornas de briga!(4) Melhor era subtrair, retirar, como um escultor diante de um bloco de pedra. Melhor era ser menos, apequenar-se, ser o mínimo possível e reivindicar o silêncio.(5) Já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muita coisa de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ´ordem`, mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas.(6) O que farei? O que devo fazer? O que a consciência diz que devo fazer com esse homem, ou melhor, com esse fantasma? É imperativo que me livre dele, ele precisa ir. Mas, como?(7)

Feliz natal,

Eva(8)

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1. Manuel PUIG. Boquitas pintadas. 1982. Tradução de Luiz Otávio F. Barreto Leite. Círculo do livro. São Paulo, sem data, pg.32.

2. Fiódor DOSTOIÉVSKI. Memórias do subsolo. 1864. Tradução de Boris Schnaiderman. Editora 34. São Paulo. 5ª edição, 2007, pg.145.

3. Samuel BECKETT. Primeiro amor. 1945. Tradução de Célia Euvaldo. Cosac Naify. São Paulo. 2ª reimpressão, 2007, pg.10.

4. Atiq RAHIMI. Syngué sabour – Pedra-de-paciência. 2008. Tradução de Flávia de Nascimento. Editora Estação Liberdade. São Paulo. 2009, pg.69.

5. Adriana LISBOA. Sinfonia em branco. 2001. Editora Rocco. Rio de Janeiro. pg.111.

6. Raduan NASSAR. Um copo de cólera. 1978. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 5ª edição, 15ª reimpressão, pg.55.

7. Herman MELVILLE. Bartleby, o escriturário – Uma história de Wall Street. 1853. Tradução de Cássia Zenon. L&PM Editores. Rio Grande do Sul. 2003, pg.79.

8. Lionel SHRIVER. Precisamos falar sobre o Kevin. 2003. Tradução de Beth Viera e Vera Ribeiro. Editora Intrínseca. Rio de Janeiro. 2007, pg.145

Imagem: “Miserable curves”, de Kazuya Akimoto, 2003: http://www.kazuya-akimoto.com/blog14/

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