Mixlit 2: Uma noite

Em pânico, procurou pôr fim àquele momento feliz: assim esperava poder diminuir a infelicidade que estava certo de que iria se abater sobre ele depois. A maneira mais segura de se acalmar, pensou, era simplesmente aceitar o inevitável:(1) Veja os braços, por exemplo. O menino até anda meio recurvado. E as mãos são grosseiras, porém isso já tem causa muito diferente, a culpa é toda dos esportes, futebol, principalmente natação e remo.(2) Parecia uma estátua de pedra trancada na carlinga. O céu escurecia, a noite não demoraria a cobri-lo por inteiro, as nuvens já não estavam rosadas mas sim escuras, com filamentos vermelhos.(3) E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos – lá estava uma menina, como se fosse carne de sua ruiva carne.(4) Ela também tinha lágrimas na voz, estava com o aspecto um pouco baqueado e respirava com dificuldade; apesar disso ainda encontrou força para dizer:(5)

– Eu vi no campo doenças que pensei nunca chegaria a ver, doenças que só se encontram nos tratados médicos. Por exemplo, a Noma, uma gangrena da boca que só aparece nas pessoas totalmente desnutridas. Formavam-se buracos nas faces e através deles podíamos enxergar os dentes. Ou então o Pênfigo, um tipo de Fogo Selvagem, uma doença extremamente rara, em que a pele se desfaz em pústulas e em poucos dias o doente morre.(6) Depois veio aquela tontura, aquela confusão, o ir-se diluindo como em água espessa, e o corrupiar das luzes; a luz inteira do dia que se desmanchava fazendo-se cacos; e aquele sabor de sangue na língua. O Eu pecador ouvia-se mais forte, repetido, e depois terminava: “pelos séculos dos séculos, amém”; “pelos séculos dos séculos, amém”; “pelos séculos…”(7)

Era triste. Caiu um toró. Chovia. Ficava mais triste.(8) De repente, não lhe restava nenhuma atitude, exceto a de que o dia, pelo menos, estava completo. A noite existiria – com princípio, meio e fim.(9)

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1. Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.109.

2. Mário DE ANDRADE. Amar, verbo intransitivo. 1927. Idílio, Villa Rica Editoras Reunidas. Belo Horizonte – Rio de Janeiro. 16ª edição, 1944, p.94.

3. Roberto BOLAÑO. Estrela distante. 1996. Tradução de Bernardo Ajzenberg. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, p.35

4. Clarice LISPECTOR. Felicidade clandestina. 1971. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 1998, conto: Tentação, p.47

5. Franz KAFKA. O castelo. 1922. Tradução de Modesto Carone. Companhia das Letras. São Paulo. Edição de bolso, 2008, p.59.

6. Peter WEISS. O interrogatório. 1965. Tradução de Teresa Linhares e Carlos de Queiroz Telles. Editorial Grijalbo. São Paulo. 1970, p.46.

7. Juan RULFO. Pedro Páramo. 1955. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora Record. Rio de Janeiro. Edições BestBolso, p.87.

8. Rodrigo DE SOUZA LEÃO. Todos os cachorros são azuis. 2008. Editora 7letras. Rio de Janeiro. p.27.

9. F. Scott FITZGERALD. O último magnata. 1941. Tradução de Roberto Pontual. Editora Record. Rio de Janeiro. Sem data, p.121.

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